Artigo- Vidros, Desempenho Térmico e a NBR 15575

Por Fernando Westphal*

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Com a entrada em vigor em julho de 2013, a norma de desempenho de edificações (NBR 15575) passou a ser o foco de discussões em diversos eventos relacionados à construção civil. São seminários e workshops que reúnem engenheiros, arquitetos, representantes de construtoras e até advogados. Sim, trata-se de um assunto jurídico porque a partir dessa norma o consumidor final, qualquer cidadão que ocupa uma edificação residencial nova pode exigir da construtora os seus direitos como consumidor, caso o desempenho alcançado esteja aquém do estabelecido em norma.

A principal questão levantada nessas discussões é: estamos prontos para atender a norma? Haverá impacto no custo e, consequentemente, no preço final das edificações?

A NBR 15575 foi finalmente publicada após mais de uma década em discussão. Esse tempo todo foi consumido para que fossem equalizados os requisitos de desempenho com a viabilidade técnica e econômica para implementação imediata. Evidentemente, nesse caminho, alguns requisitos foram definidos com limites mais brandos num primeiro momento, com a expectativa de que ocorram revisões progressivas da norma no futuro próximo. Espera-se que os limites sejam ajustados, promovendo-se uma evolução na qualidade e desempenho das edificações residenciais brasileiras.

Mas e quanto aos vidros e esquadrias? Qual o impacto das exigências da NBR 15575 na especificação desses produtos?

Inicialmente, é importante destacar que a NBR 15575 trata do desempenho do edifício e seus sistemas como um todo, e não os produtos individualmente. Para cada produto, existem normas específicas, que podem ou não estar sendo citadas na NBR 15575. Por exemplo, as esquadrias devem atender a NBR 10821; os vidros de controle solar deve seguir o que determina a NBR 16023; e a especificação dos vidros deve atender os procedimentos e requisitos da NBR 7199. São normas que já estão em vigor há alguns anos, e essas são apenas alguns exemplos.

No que diz respeito ao desempenho térmico, a NBR 15575 estabelece dois procedimentos de análise das coberturas e fachadas – referenciadas na norma como Sistemas de Vedação Verticais Externas. No método simplificado, prescritivo, as fachadas devem atender a limites de transmitância e capacidade térmica de acordo com a zona bioclimática na qual a edificação se encontra. Caso o projeto não atenda a esses limites, o método de simulação computacional pode ser aplicado.

Por meio desse procedimento, a simulação computacional do comportamento térmico da edificação deve ser realizada por meio de software específico, para demonstrar que os ambientes de permanência prolongada (dormitórios e salas) proporcionam condições aceitáveis de temperatura do ar. Isso significa oferecer uma temperatura máxima inferior ou igual a temperatura externa no dia típico de calor na cidade em questão, e uma temperatura mínima superior a mínima externa em 3oC no dia típico de inverno.

O método simplificado não faz qualquer menção quando ao desempenho térmico dos vidros ou esquadrias, de forma que o uso de um vidro de melhor desempenho térmico para uma determinada região não irá implicar em qualquer benefício à classificação do edifício perante a norma, nem comprometer a sua qualificação – entre os níveis de desempenho mínimo, intermediário e superior.

Mas, produtos de alto desempenho nas esquadrias podem fazer a diferença quando a análise é feita por simulação computacional. Neste caso, como a edificação é analisada de forma global, considerando todas as suas condições de fechamentos (paredes, coberturas, portas e janelas), o uso de um vidro de controle solar, ou até mesmo de um vidro insulado, pode comprovar a eficácia na manutenção de boas condições de conforto térmico tanto no verão, quanto no inverno, principalmente em ambientes com área envidraçada significativa.

No verão, o uso de vidros de controle solar, especialmente aqueles com baixo fator solar, da ordem de 40% ou menos, pode reduzir significativamente o ganho de calor por radiação solar incidente nas janelas. Dessa forma, evita-se que a temperatura interna do ambiente atinja valores elevados. Os vidros insulados podem alcançar valores de fator solar ainda mais baixos do que as versões monolíticas ou laminadas, mantendo boa transmissão luminosa, que também é outro requisito avaliado na norma de desempenho.

No inverno, os vidros insulados proporcionam maior resistência à perda de calor pelas janelas. A câmara de ar entre as duas lâminas de vidro corta pela metade o fluxo de calor por condução que passa pela janela. Isso significa que, num dia muito frio, sem sol, o vidro insulado irá manter o ambiente interno aquecido por mais tempo.

Assim, dependendo do clima, o vidro insulado é uma boa solução para diversos fatores: pode reduzir o pico de calor no verão (devido ao fator solar mais baixo); reduz a perda de calor no inverno (devido ao isolamento proporcionado pela câmara de ar); e garante boa estética e transmissão luminosa (pois há menos distorção de cores da superfície metalizada do vidro de controle solar utilizado na composição). Tudo isso pode ser avaliado dentro dos requisitos exigidos pela NBR 15575, por meio de simulação computacional.

Outra pergunta que vários projetistas e estudantes têm feito é: no caso da NBR 15575, quem faz a avaliação? Existe laboratório certificado para isso?

A NBR 15575 funciona como várias outras relacionadas à construção civil, ou seja, não é necessário submeter o projeto a uma terceira parte para a avaliação. Mas é importante que os projetistas garantam o atendimento à norma, em todos os seus critérios, e arquivem a documentação do projeto e memoriais de cálculos para eventuais consultas, principalmente na expectativa de haja alguma contestação no futuro. Na prática, algumas construtoras têm recorrido a especialistas e consultores para obter laudos e relatórios técnicos referente a assuntos específicos. Um dos tópicos que tem gerado essa demanda por consultoria é o desempenho térmico.

Por fim, podemos dizer que nossa indústria já dispõe de produtos que permitem o atendimento a NBR 15575. Cabe aos projetistas a solução ideal para cada caso. Quanto aos requisitos de desempenho térmico, estamos aptos para atender à norma. Mas é importante desenvolver as soluções de projeto como um todo. Não adianta especificar uma boa esquadria, se as paredes não são adequadas ao clima, e vice-versa. Com a entrada da norma de desempenho em vigor começa a ficar mais evidente a necessidade de análise do comportamento térmico por simulação computacional, da mesma forma como é feito de forma corriqueira os cálculos estruturais e o projeto luminotécnico de grandes edifícios, por exemplo.

*Fernando Simon Westphal é engenheiro civil, doutor, professor efetivo do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).