Energia solar e o vidro- entenda essa tendência

 

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Matéria publicada pela revista Tecnologia & Vidro, em 04.2016

Nesta edição entrevistamos o gestor nacional de vendas da Blue Sol – Energia Solar, João Paulo Souza, que trabalha com o sistema tradicional, o SFV (material à base de silício e vidro). Ele fala, inclusive, das possibilidades positivas desse mercado em curto prazo graças às ações de incentivo já tomadas pelo governo e das iniciativas privadas. Acompanhe.

Revista Tecnologia & Vidro (T&V) Quais as vantagens da geração da própria energia?

João Paulo – Ter a capacidade de gerar sua própria energia e, consequentemente, abater os seus custos com a energia elétrica, é uma vantagem muito importante para que as pessoas busquem fontes alternativas. Mas além da economia financeira, podemos citar: Independência energética, Impacto socioambiental, Pioneirismo tecnológico, Redução da emissão de gases poluentes no planeta, Movimento da economia do País e geração de empregos.

T&V – Como os órgãos geradores e distribuidores de energia enxergam essa geração?

De maneira resumida, a geração distribuída traz benefícios para o setor elétrico: ela está no centro de consumo, o que reduz a necessidade de estrutura de transmissão elétrica e evita perdas.

T&V – Como é que funciona ou como é feita essa troca de créditos?

A Resolução Normativa 482/2012 e sua revisão, RN 687/2015 (regras que estabelecem as condições gerais para o acesso de microgeração e minigeração distribuída aos sistemas de distribuição de energia elétrica e ao sistema de compensação de energia elétrica), ambas da ANEEL, são as regulamentações que definem o sistema de compensação de energia no Brasil.

Essas normativas habilitam o consumidor de energia elétrica a produzir a própria energia e pagar apenas a taxa mínima referente ao uso da rede de distribuição, com possível compensação energética dos créditos gerados pelo excesso de energia em até 60 meses. Ou seja, é possível conectar o sistema de geração fotovoltaica à rede pública de abastecimento, dispensando a necessidade de baterias, uma vez que o excesso de energia produzida e não consumida no momento é injetado na rede elétrica e torna-se um crédito energético, que poderá ser compensado na fatura mensal de energia.

T&V – Para gerar energia para funcionamento de um único chuveiro elétrico – que é utilizado três vezes por dia, por exemplo –, qual a área necessária para captação solar?

São vários os fatores que impactam no dimensionamento de um sistema de geração de energia elétrica fotovoltaica. E2O perfil energético de quem busca um sistema como esse é apenas a primeira diretriz que irá direcionar o dimensionamento desse sistema.

É necessário estudar a irradiação solar incidente na região onde o sistema poderá ser instalado, a fim de entender como o ciclo do Sol se comporta naquela região. Com base nisso, chegamos ao número de Hora Solar Pico (HSP), número que irá permitir determinar o número de módulos necessários para gerar a energia que atenda a necessidade energética de quem busca a tecnologia.

De maneira bem resumida, um sistema de 10kWp instalado em Ribeirão Preto (SP), que tem uma HSP de 4,89, irá performar melhor que o mesmo sistema instalado em São Paulo (SP), que tem 4,75 de HSP. Ou seja, a área necessária varia em função do número de módulos que, por sua vez, varia em função da necessidade de geração somada à irradiação solar na região a ser instalada, orientação cobertura e nível de sombreamento.

• Um chuveiro de 4.000 W, funcionando três vezes no dia por cinco minutos (15 minutos).
• Consumo do chuveiro = (4.000 W* (15 min/60)*30 = 30 kWh/mês
• Um módulo SFV (310 Wp) em Ribeirão Preto (HSP 4,89) = 35 kWh/mês*
*Considerando as perdas
Um módulo é capaz de alimentar um chuveiro funcionando por 15 minutos por dia durante um mês.

T&V – Usando esse mesmo chuveiro como exemplo. Em quanto tempo a instalação de energia solar poderia se pagar, considerando-se a economia gerada pela não utilização da energia elétrica? É possível se fazer essa conta aproximada?

Hoje, devido ao elevado custo da energia elétrica no Brasil, os sistemas solares fotovoltaicos têm apresentado um payback que varia entre quatro e sete anos, com um retorno anual que tem variado entre 15% até 25%. As taxas de retorno anuais são baseadas no custo da energia em R$/kWh e no total gerado em kWh pelo sistema.

Pensando como um investimento, tecnologia que apresenta tempo de vida que varia entre 25 e 30 anos, que se paga entre o 4.° e 7.° ano, com rentabilidade acima da taxa mais atrativa no mercado (atualmente), tem se mostrado, sim, um bom investimento.

T&V – O surgimento de filmes de captação de energia solar transparentes, como os que serão produzidos pela Sunew no Brasil/CSEM, representam uma evolução nesse setor?

Sem dúvida é uma evolução da tecnologia. Agora, a discussão é um pouco mais técnica quando falamos de escala comercial e entramos na relação custo-benefício da tecnologia.

As células OPVs – Organic Photovoltaic Cells (material à base de polímeros orgânicos e plástico) apresentam performances muito inferiores aos SFV. Essa diferença acaba criando uma barreira natural de implementação dessa tecnologia (OPV) em escala comercial em um curto prazo.

T&V – Esses materiais fotovoltaicos orgânicos (OPV) que estão sendo anunciados pela Sunew, quando instalados em uma fachada de edifício podem gerar 50 Watt-pico por metro quadrado. Isso é normal, pouco ou muito quando comparado com a tecnologia que já existia até aqui?

E4Se comparado com os módulos fotovoltaicos tradicionais, essa geração é baixa, visto que os módulos tradicionais tem capacidade de 155 kWp/m².

Se pensarmos na capacidade de geração, na cidade de Ribeirão Preto (SP), um módulo SFV de 310 Wp (área do módulo – 2 m²) gera 35 kWh/mês (considerando todas as perdas).Se adotarmos a mesma linha de raciocínio para o OPV, 2 m² representam 100 Wp, que gerariam 11 kWh/mês nessa mesma cidade.

T&V – Seria possível a disseminação de coberturas de garagens residenciais (tamanho 6 x 6 m em média) dotadas de vidros fotovoltaicos (transparentes ou não) se popularizarem? Nesse caso, uma fonte de captação desse tamanho seria capaz de suprir a residência de que forma durante um dia de captação? (Somente lâmpadas? Somente aparelhos eletrônicos?)

Um sistema SFV tradicional que possa ser instalado em uma área de 37 m², tem uma potência de 5 kWp com módulos de 2 m² de 310 Wp cada, tem uma capacidade de gerar aproximadamente 550 kWh/mês. Essa energia é, com certeza, capaz de alimentar por completo uma casa de médio porte.

Fazendo essa mesma projeção com o OPV, que apresenta 50 Wp/m², seria possível implementar um sistema de 1.8 kWp com a mesma área, gerando aproximadamente 198 kWh/mês. Geração incapaz de alimentar uma casa tradicional, que tem consumo médio entre 250 a 300 kWh/mês.

T&V – Por que a instalação e a manutenção de energia fotovoltaica ainda é tão cara? O que é possível se fazerE3
para que ela seja popularizada?

A implementação de um sistema solar fotovoltaico, hoje, não apresenta mais característica de alto custo, uma vez que o retorno sobre o investimento tem se mostrado cada vez mais rápido, gerando ganhos expressivos ao longo dos 25/30 anos de vida do sistema.

Na medida em que essa tecnologia vá sendo nacionalizada, além da redução da carga tributária, novas linhas de financiamento com prazos mais extensos e taxas atrativas serão disponibilizadas com burocracia reduzida.

T&V – O governo poderia ter uma ação mais eficaz nesse sentido?

O governo tem demonstrado esforços para fomentar o mercado de energias renováveis no Brasil. A normativa n.º 687, de 24 de novembro de 2015 é, sem dúvida, um grande demonstrativo que existe um interesse também por parte do governo.

E5Outro marco importante no mercado de energia solar fotovoltaica foi a criação do ProGD – Programa de Desenvolvimento da Geração Distribuída de Energia Elétrica, lançado pelo Ministério de Minas e Energia (MME) no dia 15 de dezembro de 2015. Ele tem como responsabilidade ampliar e aprofundar as ações de estímulo à geração de energia pelos próprios consumidores, com base nas fontes renováveis de energia (em especial a solar fotovoltaica). O Programa pode movimentar pouco mais de R$ 100 bilhões em investimentos até 2030, e inclui a criação e expansão de linhas de crédito e formas de financiamento de projetos para a instalação de sistemas de geração distribuída nos segmentos residencial, comercial e industrial.